Fazia tempo, mas ele voltou. O sentimento de culpa por não dar tudo o que minha filha precisa, de tempo a beijos e atenções. Mas o que me deixou revoltada hoje não foi o sentimento em si, ao qual me acostumei como alguém que já espera um ônibus lotado para voltar para casa, mas o motivo dele. Estou me sentindo uma mãe culpada por não ter - acredite -providenciado uma fantasia Rálouim pra Nina. Ela foi para a escola, onde hoje acontece a festinha, com seu habitual moletonzinho desbotado.
Eu preciso confessar: eu detesto o Ráloium, apesar de ler sobre mitologia celta e achar seu significado muito bonito. O que me mata é essa nossa mania de macaquear o que é de fora, e esquecer o que de bom tem aqui dentro. Não que eu seja profunda entendedora de sacis, botos rosas e mães d´água, apesar de ler sobre também... Mas daí a aceitar cinco moleques vestidos de vampiro na porta do seu apartamento pedindo doces, como se estivessem em um filme estadunidense, dá uma estrada muito longa.
Como toda festa pagã, o Rálo louvava basicamente duas coisas: a boa colheita do ano e os espíritos e deuses que garantiam essa boa colheita. Nada diferente das festas pagãs gregas, romanas, egípcias, andinas e outras tantas pelo mundo. Sobre esse sentido, o de agradecimento à mãe natureza, eu não tenho nada contra. Agora, ao festejar por festejar, porque "é legal", porque "as crianças gostam", eu tenho muito contra. Eu simplesmente penso o seguinte: se agora é fato consumado, se não dá mais para voltar e fazer as crianças curtirem o saci, que pelo menos essa festa ganhe algum sentido pra nós.
E o que nos impede de convidar os sacis, os boi tatás e as caiporas para festejar junto com os duendes, fadas e bruxas da festa celta? Estaríamos fazendo aquilo que somos craques: misturar ritos, culturas e crenças, para dela surgir uma terceira, genuinamente brasileira. Não vejo porque as escolas não fazem isso. Desse jeito, não deixaríamos nenhuma criança triste e, de quebra, aproveitaríamos o momento para (re)introduzir nossos mitos aos pouquinhos.
A propósito de misturas raças mitológicas, ontem à noite, explicando para a Nina porque eu não gosto do Rálo, disse que depois que as bruxas vieram para o Brasil os sacis, as mulas sem cabeça e as iaras ficaram tristes, no que ela completou: "as Emílias também, né, mamãe?"
É filha, as Emílias também....
Saudadinha chata...credo.


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