É claro que fugimos para nossas casas! Nunca vivemos uma guerra declarada. Nunca sofremos nenhum atentado terrorista declarado. Nunca nos deparamos com essa situação. E, principalmente, nunca confiamos nas nossas instituições, especialmente a polícia e a política.
Agora vêm uma meia dúzia de jornalistas e "entendidos" dizer que fugimos como um bando de galinhas apavoradas e que era isso que o PCC queria! Agora vêm um bando de idiotas nos comparar com a França ativa mesmo sob os bombardeios da segunda guerra, o Iraque na "normalidade" mesmo sob tutela dos EUA, Sarajevo funcionando mesmo sob as rajadas de franco-atiradores? Ora! Não tem comparação! Esses países estão acostumados com a guerra declarada, está no sangue deles. Conhecem seus limites, suas regras, e, na maioria dos casos, bem ou mal confiam nas suas autoridades. No nosso sangue, por enquanto, está "apenas" a guerra não-declarada, o terror não-declarado em cada esquina escura, a guerra dos guetos, dos becos, dos morros, das ruas escuras, dos sequestros-relâmpago, dos tiros perdidos. Será que já não é o bastante para um país que destina quase 40% do seu PIB para o pagamento de impostos?!!
Mas, espere, não estamos falando de guerra, mas de terrorismo. Pois bem. Mesmo estes países "avançados" na guerra declarada ainda não se acostumaram com o terror moderno declarado. Prova disso, apenas uma, é a morte estúpida do brasileiro Jean Charles, em Londres. É duro dizer isso, mas é por essas e por outras que ainda podemos dizer que não nos acostumamos com o terror - e, pior, dar graças por isso.
Nosso auto-toque de recolher foi portanto imposto, sim, por nossos terroristas do dia a dia que escolheram dois ou três dias específicos para exacerbar. Mas, espere. Os terroristas aos quais me refiro não são seguidores do PCC. São nossas autoridades, que permitiram que isso acontecesse, ainda que soubessem do que estava por vir há mais de semana. Nosso pavor foi nada mais que um fruto da total descrença do brasileiro com relação às suas instituições. Isso sim está no nosso sangue, e há 500 anos! Como esperar outra reação?
Finalmente hoje li uma única opinião sensata no jornal, que reverbera o que vinha falando desde ontem: 1) o pavor nasceu não dos emails gasparzinho, mas da putrefação do Estado e 2) não interessa ao crime uma população na legalidade, na igualdade de oportunidades, de salários, de serviços, portanto um país menos desigual é a melhor arma contra a criminalidade. Quanto mais próximo disso, mais chances temos de não vivermos sob constante toque de recolher. O problema é que, para isso, precisamos de reformas. E, para reformas, gente séria no parlamento. E, para gente séria ocupando cargos públicos, gente, muita gente, mais muita gente nas ruas do nosso país. Quem falou isso, só que com outras palavras foi o psicanalista Jurandir Freire Costa.
Só para terminar. Não somos galinhas porque fugimos para nossas casas. Somos galinhas porque, no dia seguinte, enquanto o governo pactuava com o PCC, voltávamos para nossos trabalhos em vez de parar o país de verdade, não com mais atos de terrorismo tupiniquim, mas com milhares, milhões de pessoas nas ruas. Por isso sim, merecemos o apelido!
Se parei no tempo? Dane-se! Eu ainda acredito no poder do povão. Resta saber quando vamos acordar.